Nós na Flip 2009


Manuel Bandeira para o último dia da Flip
5 05UTC Julho 05UTC 2009, 13:14
Arquivado em: Manuel Bandeira

Há muitos Bandeiras, este é o último deste blog, mas convido todos que nos leram a procurar mais facetas deste poeta magnífico.

Autorretrato:

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Por Mariza Tavares



Poema de hoje
4 04UTC Julho 04UTC 2009, 13:00
Arquivado em: Manuel Bandeira

Manuel Bandeira amou muito. Com dor, às sem ser correspondido (e também foi amado sem corresponder). E soube descrever o aturdimento da paixão como poucos. Como no poema deste sábado.

Teresa

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Por Mariza Tavares



Poema de hoje
3 03UTC Julho 03UTC 2009, 15:06
Arquivado em: Manuel Bandeira

Todos leem poemas de Manuel Bandeira: em cada esquina, em todas as tendas. Aqui no blog, vamos hoje de “Neologismo”:

Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.

Intransitivo:

Teadoro, Teodora.

Por Mariza Tavares



Educação é tudo
3 03UTC Julho 03UTC 2009, 15:02
Arquivado em: Manuel Bandeira

Na mesa das 10h,  que reuniu os poetas Eucanaã Ferraz, Heitor Ferraz Mello e Angélica Freitas, com mediação de Carlito Azevedo, Eucanaã foi aplaudido pela plateia ao lembrar que, quando menino, não havia livros em sua casa: “nem Monteiro Lobato”, disse. Seu amor pela literatura se deu aos poucos, na escola pública. “Educação é tudo, sim!”, afirmou sob aplausos.

Por Mariza Tavares



Ainda Bandeira
2 02UTC Julho 02UTC 2009, 13:29
Arquivado em: Manuel Bandeira

Na conferência da abertura, ontem à noite, Arrigucci Jr. brindou a plateia com a mais perfeita tradução de Manuel Bandeira, afirmando que sua trajetória “foi a superação do sentimentalismo”. E, ao ler obras como “Poema do beco”, “Momento num café” e “Poema só para Jaime Ovalle”, analisou o que chamou de uma “poesia humilde”, capaz de tornar solene o pequeno mundo do dia-a-dia. E como a Flip é de Manuel Bandeira, o poeta das pequenas grandes coisas, o poema de hoje é “Porquinho-da-índia”:

Quando eu tinha seis anos

Ganhei um porquinho-da-índia

Que dor de coração me dava

Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala

Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos

Ele não gostava.

Queria era estar debaixo do fogão.

Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

_ O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

Por Mariza Tavares



O fabuloso Bandeira
1 01UTC Julho 01UTC 2009, 10:12
Arquivado em: Manuel Bandeira

Esta Flip homenageia Manuel Bandeira. A conferência de abertura, hoje à noite, será feita por Davi Arrigucci Jr. e dedicada a ele. Segundo o crítico literário José Castello, Bandeira foi, “acima de tudo, o grande pai de uma geração de poetas fabulosos, todos mais jovens que ele: Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Augusto Frederico Schmidt, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto.”
 
Fabulosa também é a poesia de Bandeira, temperada com a dor do diagnóstico de uma tuberculose que, em 1904, representava uma sentença de morte. Amarga, mas às vezes desconcertantemente doce. Como neste poema.
 
 Namorados
 
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
 
A moça olhou de lado e esperou.
 
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?
 
A moça se lembrava:
- A gente fica olhando…
 
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
 
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
 
- Antônia, você parece uma lagarta listada.
 
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
 
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada! Você parece louca. 

Por Mariza Tavares